A trajetória de El Salvador como o primeiro país do mundo a adotar o Bitcoin como moeda de curso legal representa um dos estudos de caso mais fascinantes da economia moderna. O que começou em 2021 como uma aposta ousada do presidente Nayib Bukele para bancarizar a população e atrair investimentos transformou-se, nos anos seguintes, em um complexo jogo de xadrez geopolítico e financeiro. Para entender o cenário atual em 2026, é crucial analisar a reforma legislativa que alterou o status do criptoativo e as pressões internacionais que moldaram essa decisão.
Embora a revolução prometida tenha colocado o país no mapa global da inovação, a realidade prática impôs ajustes severos. A obrigatoriedade de aceitação do Bitcoin foi revogada, e o ativo deixou de ser oficialmente uma "moeda" na definição legal estrita, passando a funcionar sob um regime de aceitação voluntária. Essa mudança não sinaliza o fim do experimento, mas uma adaptação necessária para garantir a sobrevivência econômica da nação diante de dívidas crescentes e negociações vitais com organismos internacionais.
A reforma da lei bitcoin e a mudança de status
No início de 2025, menos de quatro anos após a implementação da legislação pioneira, a Assembleia Legislativa de El Salvador aprovou mudanças significativas na Lei Bitcoin. A alteração mais impactante foi a retirada do status de "moeda oficial" do criptoativo. De acordo com informações reportadas pela BBC News Brasil, a reforma modificou seis artigos e revogou outros três, restringindo o uso do Bitcoin a transações entre cidadãos e empresas privadas de forma totalmente opcional.
Essa reestruturação legislativa eliminou a obrigatoriedade que antes forçava comércios e empresas a aceitarem a criptomoeda, a menos que houvesse limitações tecnológicas. Agora, a decisão de transacionar em Bitcoin cabe inteiramente às partes envolvidas, removendo o peso estatal sobre a adoção forçada no varejo.
Juristas e economistas apontaram que a nova redação da lei gerou debates sobre a terminologia. Embora a palavra "moeda" tenha sido removida, a expressão "de curso legal" foi mantida em alguns trechos, criando uma zona cinzenta interpretativa. Especialistas esclarecem que, na prática, o Bitcoin passou a ter curso legal no sentido de que seu uso é permitido e regulado, mas não é mais moeda de curso legal forçado, pois ninguém é obrigado a aceitá-lo para liquidar dívidas.
O papel decisivo do Fundo Monetário Internacional
A motivação por trás dessa guinada política é puramente econômica. El Salvador enfrentava um cenário de dívida pública elevada e crescimento lento, necessitando urgentemente de liquidez. A reforma da lei foi uma peça-chave nas negociações com o Fundo Monetário Internacional (FMI) para a liberação de um empréstimo de US$ 1,4 bilhão.
O FMI havia estabelecido explicitamente a necessidade de "mitigar os riscos do Bitcoin" como uma condição para o acordo. A volatilidade do ativo e os riscos fiscais associados à sua manutenção no balanço do Estado eram pontos de atrito constantes. Ao tornar o uso opcional e remover a obrigatoriedade de aceitação, o governo salvadorenho sinalizou a conformidade necessária para destravar o pacote financeiro.
Além do empréstimo direto, a adequação às normas do FMI abriu portas para financiamentos adicionais de outras instituições, como o Banco Mundial e o Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID). Estima-se que o pacote total de ajuda financeira possa ultrapassar os US$ 3,5 bilhões, um montante vital para uma economia que, por cinco anos consecutivos, registrou o menor crescimento da região.
Adoção popular e a realidade da Chivo Wallet
Para compreender a eficácia do experimento, é necessário olhar para os dados de adoção real. O governo lançou a carteira digital "Chivo Wallet" com incentivos agressivos, incluindo um bônus de US$ 30 em Bitcoin para cada cidadão que baixasse o aplicativo. Esse valor representava quase 1% da renda média anual per capita, um estímulo significativo para a população.
No entanto, estudos mostraram que o incentivo financeiro foi o principal, e muitas vezes único, motivador. Conforme analisado pelo NBER (National Bureau of Economic Research), embora metade das famílias tenha baixado o aplicativo inicialmente, a retenção foi baixa. Mais de 60% dos usuários iniciais não realizaram nenhuma transação após gastarem o bônus gratuito.
A pesquisa revelou um perfil demográfico específico entre os usuários ativos: homens, jovens, educados e já bancarizados. Esse grupo, ironicamente, não era o alvo principal da política de inclusão financeira, que visava atingir a grande parcela da população desbancarizada (cerca de 70% das famílias não possuíam conta bancária antes da lei).
Barreiras culturais e tecnológicas
A resistência à adoção em massa não foi apenas uma questão de preferência, mas de confiança e hábito. A economia de El Salvador é historicamente baseada em dinheiro físico. A transição para pagamentos digitais enfrentou a desconfiança no sistema e a preferência cultural pelo papel-moeda.
Entre os que conheciam a Chivo Wallet mas optaram por não usá-la, a principal razão citada foi a preferência pelo dinheiro vivo. Outros fatores incluíram a desconfiança na tecnologia Bitcoin, a falta de smartphones com acesso à internet e a percepção de que o sistema era complicado demais para o uso diário.
Mesmo com a lei anterior exigindo que as empresas aceitassem a criptomoeda, apenas cerca de 20% das firmas o faziam na prática. E, dessas, 88% optavam por converter imediatamente os recebimentos em Bitcoin para dólares, evidenciando uma aversão à volatilidade do ativo, mesmo entre os comerciantes tecnologicamente aptos.
Impacto nas contas públicas e reservas estatais
A reforma de 2025 também alterou a relação do Estado com o criptoativo. Ficou estabelecido que não seria mais possível pagar impostos com Bitcoin, e o governo não poderia mais utilizar a moeda para quitar suas próprias dívidas. O novo artigo 12 da lei determinou que as obrigações financeiras do Estado devem ser pagas na moeda em que foram contraídas, ou seja, majoritariamente em dólares.
Apesar dessas restrições operacionais, o governo de Bukele manteve sua postura de acumulação de reservas. A embaixadora de El Salvador nos Estados Unidos, Milena Mayorga, afirmou em conferências que o país continua sendo o "país do Bitcoin" e que não há planos de liquidar as reservas estratégicas da nação. A narrativa oficial mudou de "uso diário obrigatório" para "reserva de valor e liberdade financeira".
O cenário socioeconômico subjacente
Enquanto o debate sobre criptomoedas dominava as manchetes internacionais, a população salvadorenha enfrentava desafios tangíveis. O país lida com um déficit comercial estrutural, importando muito mais do que exporta — um desequilíbrio que ultrapassou US$ 8 bilhões em 2023.
As remessas enviadas por salvadorenhos no exterior continuam sendo um pilar de sustentação, somando bilhões de dólares anualmente. Contudo, a promessa de que o Bitcoin baratearia drasticamente o envio dessas remessas não se concretizou na escala esperada, com a maioria das transferências ainda ocorrendo pelos meios tradicionais.
Além disso, a segurança alimentar permanece uma questão crítica. Dados indicam que mais da metade da população vive em situação de estresse alimentar, o que coloca as discussões sobre política monetária digital em uma perspectiva de urgência social contrastante.
Legado e perspectivas futuras
Olhando para 2026, o experimento de El Salvador oferece lições valiosas para o mundo. Ficou demonstrado que a imposição governamental de uma tecnologia financeira, por mais inovadora que seja, dificilmente supera barreiras culturais e a preferência pela estabilidade do dinheiro fiduciário no curto prazo.
O recuo estratégico do governo salvadorenho não deve ser lido como um fracasso total da tecnologia, mas como um reconhecimento dos limites da política monetária em uma economia dolarizada e dependente de crédito externo. O Bitcoin continua existindo no país, agora em um ambiente de livre mercado, onde sua utilidade será testada organicamente, sem a muleta da obrigatoriedade estatal.
El Salvador permanece como um pioneiro, tendo pago o preço do pioneirismo. O país serviu de laboratório global, provando que a coexistência entre sistemas financeiros tradicionais e descentralizados é possível, desde que haja flexibilidade para ajustar a rota quando a realidade econômica se impõe sobre a ideologia.