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Estudo inédito da USP e PUC-Rio derruba tese de bitcoin como refúgio e aponta forte ligação com bolsas globais

Análise de dados financeiros entre 2014 e 2025 revela que a criptomoeda reage diretamente a ativos de risco e performa pior durante crises globais

A premissa de que o bitcoin atua como uma blindagem patrimonial em cenários de aversão ao risco não encontra respaldo nos dados recentes. Um levantamento acadêmico conduzido por pesquisadores da FEA-USP e da PUC-Rio identificou que o desempenho da criptomoeda está intrinsecamente atrelado à bolsa de valores e a outros ativos de volatilidade. A conexão com a economia tradicional se intensificou nos últimos anos, enfraquecendo a narrativa de "ouro digital". As informações são do Valor Econômico.

Ao examinar o comportamento do mercado entre 2014 e 2025, o trabalho dividiu a trajetória do ativo digital em cinco etapas distintas. A conclusão aponta para um aumento substancial na correlação com o cenário econômico global a partir de 2022. Em momentos de turbulência, o ativo tende a apresentar resultados inferiores aos investimentos clássicos. O documento é taxativo sobre a segurança da moeda digital.

"As evidências não comprovam que o bitcoin seja um porto seguro e estável."

Metodologia e evolução histórica

Para fundamentar a análise, foram cruzados indicadores nativos da blockchain com variáveis financeiras convencionais, incluindo o desempenho da Nasdaq (focada em tecnologia), taxas de juros americanas, petróleo, ouro e o índice de volatilidade VIX. Nos primeiros anos observados, de 2014 a 2016, a cotação respondia majoritariamente a dinâmicas internas da tecnologia, mantendo baixa correlação com o mercado tradicional mesmo durante o ciclo de alta de 2017 e 2018, apesar do lançamento de contratos futuros.

O cenário começou a mudar no ciclo de 2019 a 2021. Os pesquisadores apontam a pandemia de covid-19, a expansão monetária sem precedentes e a entrada de investidores institucionais como catalisadores dessa aproximação. A interdependência atingiu o ápice nos períodos subsequentes, abrangendo a queda de 2022-2023 e a recuperação entre 2024 e 2025. O impacto macroeconômico foi decisivo na fase de baixa, superando modelos convencionais.

"Em 2022–2023, explodiu. Volatilidade, Nasdaq, ouro e juros passaram todos a influenciar o bitcoin por canais que modelos convencionais não captam."

Transparência e futuro do ativo

Apesar da forte influência externa, métricas internas como o MVRV — que pondera o valor de mercado atual frente ao preço de aquisição — mantiveram a capacidade de antecipar movimentos. Gerson de Souza, pesquisador do IAG/PUC-Rio e um dos autores ao lado de Rafael Palazzi e Marcelo Klotzle, ressalta que os fundamentos da blockchain seguem válidos, embora as variáveis macroeconômicas, como dólar e juros, sejam agora inegáveis.

"O bitcoin já está dentro do sistema financeiro global."

A persistência da eficácia dos dados on-chain oferece um contraponto à visão pessimista de que a moeda seria apenas mais um ativo de risco comum. Souza argumenta que a evolução da infraestrutura e o amadurecimento da base de investidores podem alterar esse panorama futuramente.

"A natureza do bitcoin está em constante transformação – a cada novo ciclo, novos padrões surgem. A tese do ouro digital pode se fortalecer ao longo do tempo, à medida que a base de investidores de longo prazo cresce e a infraestrutura amadurece. O bitcoin de 2030 pode ser muito diferente do de 2022."

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