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Onde a mineração de Bitcoin ainda sobrevive na China usando energia hidrelétrica

A mineração de Bitcoin na China, dada como extinta após a severa proibição de 2021, ressurge em 2026 com uma resiliência impressionante. Contrariando as expectativas globais, o país retomou silenciosamente sua posição de destaque, alcançando o terceiro lugar no ranking mundial e detendo cerca de 14% da taxa de hash global. Essa sobrevivência ocorre nas sombras, aproveitando o excedente de energia em províncias ricas em recursos e utilizando infraestrutura camuflada para escapar da fiscalização de Pequim.

A lógica para esse retorno é puramente econômica e pragmática: mineradores buscam eletricidade barata onde ela é abundante e difícil de ser transmitida para centros urbanos. De acordo com dados recentes da InfoMoney, províncias como Xinjiang e regiões com alto potencial de geração tornaram-se santuários para operadores que, sob a fachada de data centers ou instalações industriais, convertem energia excedente — incluindo a hidrelétrica e outras renováveis — em criptomoedas.

O retorno silencioso dos mineradores chineses

Em 2021, o governo chinês citou ameaças à estabilidade financeira e metas de conservação de energia para banir a indústria. O mercado reagiu com um êxodo em massa, transferindo operações para a América do Norte e Ásia Central. No entanto, a dinâmica mudou drasticamente. A infraestrutura elétrica da China, especialmente em regiões remotas, continua gerando mais energia do que a rede de transmissão consegue escoar.

Wang, um minerador privado que opera em Xinjiang, exemplifica essa nova fase. Ele relata que começou a minerar no final do ano passado aproveitando a energia que não pode ser transmitida para fora da província. “Você a consome na forma de mineração de criptografia”, afirma Wang. Essa prática resolve um problema estrutural das concessionárias de energia locais: o desperdício de eletricidade gerada, mas não consumida (conhecido como stranded energy).

Essa retomada não é apenas um movimento de pequenos operadores de garagem. Dados do Hashrate Index confirmam que a China saiu de uma participação de mercado virtualmente nula pós-proibição para recuperar dois dígitos de relevância global. O reaquecimento do setor é tão evidente que fabricantes de equipamentos de mineração, como a Canaan Inc., reportaram uma rápida retomada das vendas dentro do território chinês.

Por que a proibição falhou em erradicar a atividade

A sobrevivência da mineração na China em 2026 explica-se pela convergência de fatores econômicos e geopolíticos. Primeiro, a eletricidade barata continua sendo o insumo mais crítico para a lucratividade do Bitcoin, especialmente após os eventos de halving que reduziram a recompensa dos blocos. A China ainda oferece algumas das tarifas industriais mais competitivas do mundo em regiões específicas.

Além disso, o cenário macroeconômico global impulsionou o interesse local. A crescente desconfiança em relação ao dólar e as políticas favoráveis a criptomoedas nos Estados Unidos — impulsionadas pela administração de Donald Trump — criaram um ambiente onde a mineração se tornou novamente uma atividade de alto retorno, justificando os riscos de operar na clandestinidade.

Os operadores aprenderam a ser discretos. Diferente das gigantescas fazendas de mineração a céu aberto do passado, as novas operações estão escondidas dentro de estruturas industriais existentes ou disfarçadas como centros de processamento de dados convencionais, dificultando a detecção pelo consumo de energia na rede elétrica.

O colapso das alternativas no sudeste asiático

Outro fator crucial que empurrou mineradores de volta para a China foi o fracasso das “terras prometidas” no Sudeste Asiático. Quando a China fechou as portas em 2021, países como Laos, Tailândia e Malásia tentaram absorver esse fluxo, mas a experiência provou-se desastrosa para muitos governos e investidores.

De acordo com a DW, o Laos, que chegou a lançar um programa-piloto para usar excedentes de energia hidrelétrica na mineração, decidiu encerrar o projeto. O governo laosiano anunciou cortes no fornecimento de eletricidade para mineradores até o primeiro trimestre de 2026. A justificativa foi a falta de geração de empregos locais e o impacto negativo na rede elétrica durante a estação seca, quando a geração hidrelétrica diminui drasticamente.

Na Malásia, a situação evoluiu para um problema de segurança pública e econômica. A empresa estatal de energia acumulou perdas superiores a 1 bilhão de dólares entre 2020 e 2025 devido ao furto de eletricidade por mineradores ilegais. As autoridades identificaram mais de 13.000 estabelecimentos suspeitos, levando a uma repressão policial severa.

Redes elétricas frágeis e custos ocultos

A infraestrutura do Sudeste Asiático não suportou a demanda constante e intensiva das máquinas ASICs. Diferente da China, que possui uma capacidade de geração robusta (ainda que mal distribuída geograficamente), países vizinhos enfrentaram apagões e instabilidade.

O vice-ministro de Energia do Laos, Chanthaboun Soukaloun, foi categórico ao afirmar que a criptomoeda não gera valor comparável ao fornecimento de energia para indústrias reais. Esse ambiente hostil e a instabilidade regulatória na região vizinha tornaram o risco de operar clandestinamente na China uma opção comparativamente mais segura e estável para muitos mineradores veteranos.

A geografia da energia excedente

O foco atual da mineração chinesa está onde a energia é “invisível” para o regulador central, mas abundante para o operador local. Províncias com vasta capacidade hidrelétrica e de renováveis enfrentam frequentemente o problema de curtailment (corte de geração), onde as turbinas precisam ser desligadas porque a rede não suporta a carga extra.

Mineradores de Bitcoin atuam como “compradores de última instância” para essa energia. Em regiões como Xinjiang e áreas montanhosas do sudoeste chinês, a simbiose entre geradores de energia que precisam monetizar o excedente e mineradores que precisam de watts baratos criou um ecossistema resistente.

Apesar da repressão oficial, governos locais muitas vezes fazem vista grossa, pois a receita gerada pelo consumo dessa eletricidade ajuda a equilibrar as contas das estatais de energia regionais, criando um conflito de interesses entre as ordens de Pequim e a realidade econômica das províncias.

Impacto no preço e na segurança da rede

O retorno da China ao pódio da mineração global tem implicações diretas na segurança da rede Bitcoin. Uma distribuição geográfica mais ampla do hashrate é geralmente vista como positiva, evitando a centralização excessiva nos Estados Unidos, que dominou o mercado pós-2021.

Além disso, esse movimento serve como um suporte fundamental para a demanda de hardware e para a liquidez do mercado. O fato de a mineração persistir sob um regime de proibição demonstra a antifragilidade do Bitcoin: a rede incentiva economicamente a busca por energia barata, independentemente das fronteiras políticas ou restrições legais.

O futuro da mineração na ásia em 2026

À medida que avançamos em 2026, o cenário asiático de mineração passa por uma reconfiguração. Enquanto o Sudeste Asiático recua devido a custos sociais e energéticos elevados — e a uma associação crescente da atividade com lavagem de dinheiro e golpes cibernéticos —, a China consolida sua posição como o gigante silencioso.

Os desafios permanecem. A volatilidade do mercado e a vigilância constante do Partido Comunista Chinês significam que esses mineradores operam sempre no fio da navalha. Qualquer nova campanha de fiscalização focada em padrões de consumo de data centers pode desestabilizar novamente esse setor.

Contudo, a lição destes últimos cinco anos é clara: enquanto houver eletricidade barata e excedente, haverá mineração de Bitcoin. A China, com sua vasta capacidade hidrelétrica e de renováveis, continua sendo um dos poucos lugares no planeta capaz de alimentar essa indústria em escala, quer o governo central aprove ou não.

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