Documentos internos apontam fluxo financeiro para contas ligadas ao terrorismo e punição de auditores que alertaram a diretoria sobre as irregularidades
Uma auditoria interna realizada na maior corretora de criptomoedas do mundo revelou que US$ 1,7 bilhão (aproximadamente R$ 8,7 bilhões) foram transferidos para entidades iranianas, incluindo grupos com possíveis ligações terroristas. A descoberta, feita no ano passado por investigadores da própria empresa, resultou na demissão ou suspensão de pelo menos quatro funcionários envolvidos na apuração dos dados. As informações constam em registros corporativos analisados pelo jornal The New York Times.
O fluxo financeiro ilícito partiu de duas contas principais dentro da plataforma e violou potencialmente sanções globais impostas ao Irã. O relatório dos investigadores apontou que atores iranianos conseguiram acesso a mais de 1.500 contas na corretora ao longo do ano anterior. Após a apresentação das descobertas aos superiores, a empresa optou pelo afastamento dos profissionais em poucas semanas, alegando violações de protocolo no manuseio de dados de clientes.
Detalhes das operações suspeitas
Entre as transações identificadas, destaca-se a atuação de uma empresa sediada em Hong Kong chamada Hexa Whale Trading Limited. Documentos indicam que essa companhia utilizou a infraestrutura da corretora para enviar US$ 490 milhões a carteiras digitais conectadas a entidades do Irã. Autoridades de Israel chegaram a contatar a equipe de compliance da plataforma, informando que a Hexa Whale estaria financiando organizações como os houthis, milícia que controla o norte do Iêmen.
Outra conexão significativa envolveu a Blessed Trust, uma parceira comercial que atuava como processadora de pagamentos para a própria corretora. Investigações apontaram que US$ 1,2 bilhão em criptomoedas fluíram da conta dessa empresa para entidades ligadas à Guarda Revolucionária do Irã. A organização militar é classificada como grupo terrorista pelos Estados Unidos.
Posicionamento da empresa e contexto regulatório
A representação da corretora nega que as punições aos funcionários tenham relação com o alerta sobre as falhas de conformidade. Rachel Conlan, representante da empresa, afirmou que as medidas disciplinares contra os investigadores ocorreram devido à divulgação não autorizada de informações confidenciais.
“Qualquer sugestão de que a Binance conscientemente permitiu que atividades passíveis de sanções continuassem sem controle é incorreta e difamatória.”
Conlan assegurou que as contas envolvidas nos repasses de US$ 1,7 bilhão foram removidas e que as autoridades competentes foram notificadas. A empresa declarou ter encerrado a relação com a Blessed Trust em janeiro e informou o Departamento de Justiça sobre o caso da Hexa Whale em outubro passado.
Cenário político e antecedentes
O episódio ocorre em um momento sensível para a companhia. Em 2023, a plataforma já havia admitido culpa por violar leis antilavagem de dinheiro, concordando com uma multa de US$ 4,3 bilhões. O fundador Changpeng Zhao, que cumpriu pena de prisão federal em 2024, recebeu recentemente perdão do presidente Donald Trump. A startup de criptomoedas da família Trump, World Liberty Financial, mantém laços comerciais estreitos com a corretora.
Apesar das promessas anteriores de reforçar a segurança e a contratação de especialistas em regulação, a sequência de eventos sugere dificuldades contínuas no controle de agentes mal-intencionados. Além das demissões dos investigadores, a empresa enfrentou a saída de diversos executivos de compliance nos últimos meses, incluindo gerentes de sanções e líderes de equipe.