Levantamento com analistas aponta empate entre Bitcoin e Solana na preferência do mercado sob cenário de fortes incertezas econômicas e políticas
As chamadas “blue chips” do universo digital retornaram ao foco primário dos gestores financeiros. Um mapeamento que consultou sete empresas de análise e casas especializadas identificou 14 ativos digitais promissores para o mês, colocando o Bitcoin (BTC) e a Solana (SOL) no topo das apostas, com o Ethereum (ETH) logo na sequência. Os dados revertem a tendência de perda de espaço vista em fevereiro e foram baseados em um levantamento realizado pelo portal Valor Investe.
O retorno das principais moedas aos portfólios ocorre durante um período de alta instabilidade global. Fatores macroeconômicos desfavoráveis e as recentes tensões geopolíticas, marcadas pelas ofensivas dos Estados Unidos e de Israel contra o Irã, elevaram consideravelmente a aversão ao risco nos mercados internacionais.
Theodoro Fleury, gestor e diretor de investimentos da QR Asset, detalha os elementos que geraram o estresse recente no setor.
“Após uma queda acentuada em fevereiro, impulsionada principalmente por fatores macroeconômicos externos, como as ameaças de tarifas do ex-presidente Trump e a instabilidade geopolítica, o sentimento do mercado atingiu níveis de ‘medo extremo’.”
Ele avalia que métricas elevadas de pessimismo costumam anteceder recuperações de preço ao invés de sinalizarem perdas contínuas.
“O sentimento extremo tende a se normalizar à medida que catalisadores técnicos se validam. Nesse cenário, os ativos podem capturar um crescimento significativo ao longo de março.”
Vinícius Bazan, presidente da Underblock, recorda o histórico de movimentações baixistas do ativo líder para fundamentar a proximidade de um limite na desvalorização.
“Completamos agora cinco meses consecutivos de queda para o Bitcoin, algo que só aconteceu uma única vez na história, em 2018. Historicamente, movimentos dessa duração costumam ocorrer mais próximos de fases finais de correção do que do início de novas quedas prolongadas.”
Marcelo Person, diretor de tesouraria e mercados da Foxbit, pondera que a evolução tecnológica e a maturação institucional mantêm a força da tese principal do segmento, apesar dos fluxos voláteis ligados às taxas de juros mundiais.
“Março começa com o mercado cripto ainda navegando um ambiente macroeconômico sensível a juros globais e fluxo para ativos de risco, mas com fundamentos estruturais cada vez mais consolidados. A combinação entre amadurecimento institucional, evolução regulatória e avanços tecnológicos segue sustentando a tese de longo prazo.”
Solana e a infraestrutura de pagamentos
Após um período de menor apelo nas carteiras recomendadas, a Solana retomou protagonismo. Julián Colombo, diretor sênior de políticas públicas e estratégia da Bitso para a América do Sul, correlaciona essa demanda ao uso eficiente das redes para remessas financeiras, em especial na adoção de stablecoins lastreadas ao dólar.
“A Solana chega como uma das redes blockchains mais alinhadas ao crescimento de pagamentos digitais e aplicações em escala. Em um cenário em que stablecoins ganham espaço como infraestrutura de liquidação e remessas, especialmente em mercados emergentes, redes rápidas e de baixo custo tornam-se ainda mais relevantes.”
A atenção das corporações também impulsiona a rede. Valter Rebelo, chefe de criptoativos da Empiricus Research, conecta o avanço às regulações no exterior.
“O interesse institucional em Solana tem crescido após a aprovação da lei das stablecoins nos EUA, que reforça a percepção de blockchains como Solana e Ethereum como infraestruturas essenciais para pagamentos e serviços financeiros.”
Rony Szuster, analista-chefe do Mercado Bitcoin (MB), introduz a expectativa por produtos financeiros atrelados à bolsa norte-americana, que poderiam envolver remunerações por depósitos bloqueados, conhecidos como staking.
“Solana poderá contar muito em breve com um ETF listado na bolsa americana, podendo inclusive disponibilizar o recurso de staking, o que potencializa a entrada de capital institucional no projeto.”
Consolidação de moedas e panorama institucional
O Bitcoin mantém sua base estrutural como o ativo digital mais integrado ao sistema financeiro tradicional. Empresas com patrimônio convertido na moeda e governos estaduais nos EUA fortalecem esse alcance, mitigando oscilações especulativas. Para Julián Colombo, a transição da narrativa garante a liquidez diária do ecossistema.
“O Bitcoin tende a atuar como termômetro de risco do mercado cripto, especialmente em um ambiente macro que ainda exige cautela.”
Taiamã Demaman, analista-chefe da Coinext, interpreta o comportamento de preços atual dentro da lógica clássica de consolidação em um mercado de baixa.
“Enquanto não houver a retomada consistente de níveis de preço mais altos, o ambiente tende a favorecer movimentos rápidos e assimétricos, com recuperações pontuais de preço, em vez de uma alta linear e sustentada.”
O Ethereum figura na terceira posição do ranking, dominando as aplicações de finanças descentralizadas (DeFi) e tokenização. Valter Rebelo reconhece a alta captura de capital via fundos negociados em bolsa e pontua o papel central na estruturação de inovações financeiras.
“Pense no ETH como a moeda soberana de uma nova economia digital: é meio de pagamento, unidade de conta, reserva de valor e mecanismo de segurança da própria rede.”