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Excedente de energia limpa no Nordeste vai abastecer mineração de criptomoedas em novo projeto inédito

Estratégia inovadora busca reaproveitar geração elétrica que seria desperdiçada por restrições do sistema nacional

A empresa Casa dos Ventos prepara a instalação de uma infraestrutura para processamento de bitcoins integrada a um de seus parques eólicos na região Nordeste. A iniciativa surge como resposta aos cortes forçados de produção elétrica impostos pelo Operador Nacional do Sistema (ONS), fenômeno conhecido no mercado como curtailment. Uma corporação parceira ficará responsável pelo aporte financeiro nos equipamentos de tecnologia, garantindo o aproveitamento do volume energético excedente. As informações foram reveladas inicialmente pelo jornal Diário do Nordeste.

O estrangulamento das linhas de transmissão obriga as geradoras de fontes renováveis a paralisarem suas turbinas sempre que a oferta supera a capacidade de escoamento. Para evitar esse desperdício da força dos ventos, a companhia do empresário Mário Araripe conectará a fazenda de servidores diretamente à área de geração. O diretor de comercialização da Casa dos Ventos, Itamar Lessa, detalhou a dinâmica durante a feira industrial promovida pela Federação das Indústrias do Estado do Ceará (Fiec).

“O data center de criptomineração vai funcionar com uma unidade consumidora vizinha ao parque e opera de uma forma mais flexível. Então, se eventualmente precisar desligar aquele parque porque tem um excesso de oferta, o data center consome a energia que você cortaria”

A ativação da unidade pioneira está programada para ocorrer entre os meses de julho e agosto. A expectativa interna aponta para uma diminuição de até metade dos prejuízos causados pelas restrições operacionais no local escolhido para a fase inicial. O executivo traçou perspectivas de longo prazo para o avanço da operação.

“Entre julho e agosto a gente comissiona o primeiro projeto. Essa estratégia vai escalar, vai se expandir, porque consegue mitigar bastante o efeito do curtailment”

Mecanismos de flexibilidade no consumo elétrico industrial

Além do processamento de ativos digitais, a organização estruturou uma tática de resposta da demanda para modular o uso de eletricidade junto aos seus grandes clientes comerciais. O plano consiste em oferecer vantagens financeiras para as indústrias que diminuírem a carga nos momentos de pico do sistema, período concentrado entre as 19h e 22h. A Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel) autorizou o ONS a estruturar esse programa oficialmente em julho de 2025.

“Se os meus 1.500 consumidores reduzirem o consumo por um desconto, eu consigo controlar essa redução de consumo e ofertar ao Operador Nacional do Sistema. Então, é de fato o consumidor se transformando no ativo para o setor elétrico brasileiro nesses momentos de necessidade de flexibilidade”

As perdas financeiras do segmento renovável provocadas pelas limitações de despacho ultrapassaram a marca de R$ 6,5 bilhões no ano de 2025, de acordo com o levantamento feito pela Volts Robotics. A adversidade atinge o setor continuamente desde outubro de 2021. Somente nas instalações do estado do Ceará, os 3,3 milhões de megawatts-hora desperdiçados ao longo de quatro anos seriam suficientes para abastecer 16,5 milhões de residências durante um mês inteiro.

O avanço das moedas virtuais encontra terreno propício exatamente nessa sobra de capacidade geradora do país. O relatório técnico “White Paper Data Centers”, elaborado pela Anatel e divulgado em 2025, classifica essas centrais específicas de validação digital, juntamente com as aplicações de inteligência artificial, como os grandes propulsores do aumento drástico na necessidade global de eletricidade. O porta-voz da geradora ressaltou a complexidade do cenário e a urgência de frentes complementares.

“De forma pragmática, não existe uma solução que resolva tudo. Então, você precisa compor um conjunto de soluções para mitigar esse problema. Estamos atuando em soluções regulatórias que vão viabilizar a gente exportar energia, por exemplo”

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