Movimento de baixa é impulsionado por saída de investidores institucionais e fim do dinheiro barato, mas fundamentos técnicos indicam correção dentro do ciclo de alta
O mercado de ativos digitais atravessa uma fase de estresse agudo neste ano de 2026, caracterizada por uma liquidação clássica nas últimas semanas. Bitcoin, Ethereum e outras criptomoedas registraram desvalorizações abruptas em um cenário macroeconômico adverso, marcado pela redução da liquidez global e pelo impacto de novas regulações bancárias. Alexandre Stormer, sócio-fundador da Liberta e especialista credenciado à XP, detalhou ao InfoMoney a dinâmica desse ajuste.
A pressão vendedora atingiu seu clímax recente em fevereiro, quando o Bitcoin sofreu uma queda de aproximadamente 14% em apenas um dia. O episódio resultou na liquidação em massa de posições alavancadas e no acionamento de ordens de stop, configurando um pânico momentâneo no mercado. O especialista define essa dinâmica com precisão.
“O grito desesperador dos vendidos.”
Impacto de Basileia III e saída institucional
A retração nos preços não é um evento isolado, mas a consequência de um fluxo vendedor institucional que se intensificou desde setembro do ano passado. O principal motor dessa saída de capital é a implementação das regras de Basileia III. A regulação aumentou a exigência de capital para instituições financeiras com exposição a criptoativos, reduzindo drasticamente a atratividade do setor para bancos e grandes fundos.
Esses investidores institucionais passaram a reduzir posições de maneira sistemática, aproveitando eventuais repiques de preço para realizar novas vendas. Esse comportamento gerou uma sequência de topos e fundos descendentes, preparando o terreno para a correção mais severa observada recentemente.
Fim do dinheiro barato e cenário global
Fatores macroeconômicos globais também drenaram a liquidez dos ativos de risco. O Banco Central do Japão encerrou um longo período de juros negativos e próximos a zero, cortando uma das principais fontes de financiamento barato do sistema financeiro mundial. Simultaneamente, sinais de um comando mais rígido no Federal Reserve dos Estados Unidos reforçaram o ambiente desafiador.
Curiosamente, a queda das criptomoedas não reflete uma aversão global ao risco. Índices tradicionais como S&P 500, Nasdaq e Ibovespa seguem operando próximos às máximas históricas, o que isola a correção atual a fatores específicos do ecossistema cripto e sua alavancagem.
Suportes técnicos e riscos políticos
Apesar da volatilidade, a estrutura de longo prazo do Bitcoin permanece preservada. A análise técnica aponta que a tendência secular de alta se mantém válida enquanto o ativo negociar acima da região dos US$ 48 mil. O suporte estrutural mais imediato foi identificado na faixa de US$ 56.080, embora a recuperação recente sugira que a pressão vendedora pode ter se esgotado antes de atingir esse nível.
No horizonte político, as eleições de meio de mandato nos Estados Unidos surgem como ponto de atenção. A recente derrota política de Donald Trump no Texas é vista como um possível gatilho para a baixa, dado que o mercado cripto historicamente se alinha à figura do ex-presidente. A perda de força política de Trump poderia resultar em menos apoio no Congresso americano.
Oportunidades na crise
O cenário de capitulação, contudo, pode oferecer janelas de entrada para investidores com foco no longo prazo. A avaliação é de que, após quedas profundas, o incentivo para novas vendas diminui e a relação risco-retorno se torna mais favorável para ativos consolidados como Bitcoin, Ethereum e Solana. Stormer ressalta a importância da seletividade neste momento.
“Em todas as crises nós temos oportunidades.”