A transação comercial mais famosa da história das criptomoedas ocorreu no dia 22 de maio de 2010, quando um programador húngaro pagou 10.000 bitcoins por duas pizzas grandes. O que na época parecia apenas uma troca curiosa entre entusiastas de tecnologia, equivalente a cerca de 41 dólares, transformou-se em uma fortuna incalculável. Se essa quantia fosse mantida até o cenário de mercado recente, o valor dessas duas pizzas ultrapassaria a marca de R$ 4,8 bilhões.
Essa compra não foi apenas um lanche caro; foi a prova de conceito fundamental que transformou o Bitcoin de um experimento de código em um ativo com poder de compra real. Antes desse evento, a criptomoeda nunca havia sido utilizada para adquirir um bem físico, o que levantava dúvidas sobre sua viabilidade como dinheiro. A persistência de Laszlo Hanyecz em realizar essa troca cimentou o caminho para a economia digital que conhecemos em 2026.
O contexto de 2010 e o desafio no fórum
Para entender a magnitude desse evento, é preciso voltar ao cenário tecnológico de 2010. O Bitcoin tinha pouco mais de um ano de existência e era discutido quase exclusivamente em fóruns obscuros de criptografia e tecnologia. Não existiam exchanges amigáveis, aplicativos de carteira no celular ou caixas eletrônicos de cripto. O valor da moeda era subjetivo e flutuava na casa dos centavos.
Foi nesse ambiente que Laszlo Hanyecz, um desenvolvedor que vivia na Flórida, decidiu testar os limites daquela nova tecnologia. De acordo com informações da CNN Brasil, Laszlo usava seu tempo livre para minerar e estudar a criptomoeda, sendo um membro ativo do fórum BitcoinTalks. Ele acreditava que, para o Bitcoin ser levado a sério, precisava ser aceito em troca de bens reais.
No dia 18 de maio de 2010, ele publicou um tópico histórico. Seu pedido era específico, mas simples: ele transferiria 10.000 bitcoins para qualquer pessoa que conseguisse entregar duas pizzas em sua casa. Ele não se importava se as pizzas fossem feitas pelo próprio usuário ou pedidas em uma rede de delivery, desde que chegassem quentes e prontas para comer. Laszlo especificou preferências por ingredientes comuns, como pepperoni e cebola, evitando coberturas exóticas.
A demora na aceitação da oferta
Surpreendentemente, a oferta não foi aceita de imediato. Durante dias, outros usuários do fórum comentaram no post, mas ninguém executou a troca. Alguns achavam que 10.000 bitcoins era uma quantia justa, outros questionavam a logística de pedir uma pizza de outro país ou estado. Foi somente quatro dias depois, em 22 de maio, que um jovem estudante aceitou o desafio.
Quem são os protagonistas desta transação histórica
A narrativa do Bitcoin Pizza Day gira em torno de duas figuras centrais que, sem saber, protagonizaram um dos momentos mais importantes da história financeira moderna.
Laszlo Hanyecz não era um usuário comum. Além de ser o comprador das pizzas, ele foi um pioneiro técnico. Segundo dados do Bitybank, Laszlo foi um dos primeiros a minerar Bitcoin utilizando placas de vídeo (GPUs). Antes dele, a mineração era feita majoritariamente via processadores (CPUs). Sua inovação permitiu minerar milhares de moedas por dia, o que explica como ele possuía um saldo tão alto de 10.000 BTC para gastar em um jantar.
Do outro lado estava Jeremy Sturdivant, conhecido no fórum pelo pseudônimo “jercos”. Na época com apenas 19 anos, Jeremy viu a oferta e decidiu intermediar a compra. Ele ligou para uma unidade da rede Papa John’s em Jacksonville, na Flórida, e pagou pelas pizzas com seu cartão de crédito convencional. Em troca, recebeu as moedas digitais de Laszlo.
O valor atualizado: de 41 dólares para bilhões
A matemática por trás dessas pizzas é o que gera o maior choque de realidade. No momento da compra, os 10.000 bitcoins valiam aproximadamente 41 dólares. Isso significava que cada bitcoin era cotado a cerca de US$ 0,0041.
Ao longo dos anos, a valorização do ativo desafiou qualquer previsão econômica tradicional. Em 2015, as pizzas já valiam 2,4 milhões de dólares. No entanto, com a cotação atingindo patamares históricos recentes de US$ 90 mil por unidade, o valor nominal daquela transação alcançou cifras bilionárias. Hoje, calcula-se que aquelas duas massas com queijo custariam o equivalente a R$ 4,8 bilhões.
Isso significa que cada fatia daquelas pizzas teria um custo aproximado de R$ 350 milhões, tornando-a, sem dúvida, a refeição mais cara já registrada na história da humanidade.
O destino dos 10.000 bitcoins
Uma dúvida comum é se Jeremy Sturdivant, o jovem que recebeu as moedas, tornou-se um bilionário. A resposta reflete a realidade da maioria dos primeiros adeptos da tecnologia. Jeremy não guardou as moedas esperando uma valorização de longo prazo.
O jovem utilizou os ativos para cobrir despesas de viagens pelos Estados Unidos e comprar videogames. Naquela época, a ideia de que o Bitcoin poderia valer milhares de dólares era vista como utopia, até mesmo para os entusiastas. A moeda era vista como um experimento de código aberto, e gastá-la era parte do processo de validar sua utilidade.
Arrependimento ou marco necessário?
Laszlo Hanyecz é frequentemente questionado em entrevistas se ele se arrepende de ter “comido” milhões de dólares. Sua postura, no entanto, permanece pragmática e positiva. Ele afirma não ter arrependimentos, pois entende que aquela transação foi um marco necessário para o ecossistema.
“O Bitcoin não tinha valor nenhum se ninguém o usasse. Alguém tinha que dar o primeiro passo”, afirmou o programador em diversas ocasiões.
Se ninguém tivesse começado a usar o Bitcoin como meio de troca, é provável que ele tivesse permanecido apenas como um projeto teórico e jamais alcançasse a valorização que possui em 2026.
A celebração mundial do bitcoin pizza day
O dia 22 de maio tornou-se um feriado não oficial na comunidade cripto, conhecido globalmente como Bitcoin Pizza Day. Mais do que celebrar a compra, a data simboliza a viabilidade econômica das criptomoedas descentralizadas.
Ao redor do mundo, pizzarias e empresas do setor financeiro realizam eventos comemorativos. No Brasil, estabelecimentos como a Pizzaria Moraes, em São Paulo, relatam que o movimento nesta data chega a superar feriados tradicionais como o Dia das Mães ou Natal, demonstrando a força da cultura cripto no país.
Como a tecnologia de pagamento evoluiu até 2026
A transação de Laszlo foi lenta e dependeu de confiança mútua em um fórum de internet. Hoje, o cenário é drasticamente diferente. A evolução da tecnologia permitiu que o Bitcoin fosse utilizado com muito mais eficiência e rapidez.
Lightning network e cartões cripto
Atualmente, soluções de segunda camada como a Lightning Network permitem microtransações instantâneas com taxas irrisórias, resolvendo o problema de escalabilidade que o Bitcoin enfrentava em seus primeiros anos. Além disso, a integração com o sistema bancário tradicional avançou.
Empresas fintech oferecem cartões de débito que convertem criptomoedas em moeda fiduciária (como o Real) instantaneamente no ponto de venda. Isso significa que, em 2026, qualquer pessoa pode comprar uma pizza usando Bitcoin em qualquer estabelecimento que aceite cartão, sem precisar negociar em fóruns ou esperar dias pela confirmação.
O impacto econômico e cultural
A compra das pizzas provou que um sistema financeiro descentralizado, sem intermediários bancários ou controle governamental, poderia funcionar para o comércio varejista. Isso abriu portas para a adoção institucional que vemos hoje, com países como El Salvador adotando o ativo como moeda de curso legal e grandes fundos de investimento alocando bilhões em criptoativos.
A história de Laszlo e suas pizzas de 4,8 bilhões de reais serve como um lembrete constante da volatilidade, do potencial de valorização e, principalmente, da importância da utilidade real para qualquer tecnologia disruptiva. O que começou como uma fome de fim de noite se tornou a pedra fundamental de uma nova economia global.