Pular para o conteúdo
Início » A tese de que o Bitcoin vai a zero ainda faz sentido no cenário econômico atual

A tese de que o Bitcoin vai a zero ainda faz sentido no cenário econômico atual

A discussão sobre o colapso total do principal ativo digital do mundo permanece viva, polarizando acadêmicos de renome e gestores de grandes fundos. Para responder diretamente à questão central: a tese de que o Bitcoin pode ir a zero ainda faz sentido apenas sob a ótica da teoria monetária tradicional, que exige valor intrínseco e estabilidade para que um ativo seja considerado moeda. No entanto, o cenário de 2026 apresenta uma institucionalização profunda via ETFs que torna essa probabilidade, embora matematicamente existente, cada vez mais complexa de se concretizar na prática.

Enquanto economistas premiados apontam falhas estruturais que poderiam levar o ativo à irrelevância em uma década, o mercado financeiro global trata as correções de preço não como o fim, mas como características de um ativo de risco em maturação. Para o investidor, entender essa dualidade é vital para não confundir volatilidade de curto prazo com insolvência de longo prazo.

O argumento acadêmico: por que o valor real seria nulo

A base mais sólida para a tese do colapso vem da academia, especificamente da Universidade de Chicago. Segundo Eugene Fama, laureado com o Nobel de Economia e considerado o pai das finanças modernas, a probabilidade de o valor do Bitcoin chegar a zero nos próximos dez anos é alta, próxima de 100%.

De acordo com informações reportadas pelo portal Startups, Fama argumenta que as criptomoedas não possuem valor real. O ponto central da crítica reside na limitação da oferta. Ao fixar a quantidade de moedas, o sistema impede ajustes monetários, fazendo com que o preço seja dirigido puramente pela demanda.

Essa dinâmica cria flutuações violentas de preço, o que, na visão da teoria econômica clássica, impede que o ativo funcione como moeda de troca confiável. Se ninguém quer usar o ativo como moeda devido à volatilidade, e ele não possui utilidade física (como o ouro industrial) ou lastro governamental, seu valor subjetivo poderia evaporar se a confiança do mercado desaparecer.

A volatilidade estrutural em 2026

Contrapondo a visão teórica de fim iminente, analistas de mercado observam os movimentos de queda sob uma ótica pragmática. Em 2026, o cenário macroeconômico global, marcado por juros elevados nos Estados Unidos, continua pressionando ativos de risco. No entanto, especialistas alertam que queda de preço não é sinônimo de falência do projeto.

Conforme análise publicada pela Forbes, o Bitcoin é estruturalmente mais volátil que ações ou commodities. O mercado de criptoativos, embora trilionário, ainda é pequeno comparado aos mercados globais tradicionais. Isso permite que entradas e saídas de capital relativamente modestas provoquem oscilações intensas.

O que muitos investidores interpretam como o “início do fim” é, frequentemente, apenas a liquidação de posições alavancadas. Quando o preço cai rapidamente, contratos futuros são encerrados compulsoriamente, gerando um efeito cascata de vendas automáticas. Trata-se de mecânica de mercado, e não necessariamente de uma perda de fundamentos da tese de longo prazo.

O papel dos grandes fundos e dos ETFs

Um fator que mudou drasticamente a probabilidade de o ativo ir a zero foi a aprovação e consolidação dos ETFs (fundos de índice) de Bitcoin à vista. A entrada de gigantes financeiros trouxe legitimidade e fluxo de capital constante, mas também alterou o comportamento do preço.

Os grandes fundos operam com lógicas distintas do investidor de varejo:

  • Horizonte temporal: Grandes gestores trabalham com construção de posição via preço médio, visando décadas, não dias.
  • Fluxo de caixa: Quando fundos precisam rebalancear portfólios ou cobrir saídas, o volume de venda é massivo, impactando o preço instantaneamente.
  • Correlação: A institucionalização aumentou a correlação do Bitcoin com ações de tecnologia. Em momentos de aperto monetário, ambos sofrem juntos.

Essa nova dinâmica sugere que, embora o ativo possa sofrer desvalorizações severas de 50% ou mais, a presença institucional cria um suporte de liquidez que inexistia nos primeiros anos da criptomoeda.

Teoria subjetiva do valor vs. teoria monetária

O debate sobre o valor zero passa obrigatoriamente pela definição de “valor”. Para a economia tradicional, citada por Eugene Fama, algo só é “ouro digital” se tiver um uso prático. Se não tem utilidade tangível, é classificado como “nada”.

Por outro lado, defensores da criptoeconomia utilizam a teoria subjetiva do valor. O ativo vale o quanto a sociedade decide que ele vale, baseada na sua escassez (oferta limitada) e na sua utilidade como meio de transação incensurável.

O economista Luigi Zingales lembra que moedas abstratas foram criadas ao longo da história para representar valor. O diferencial do Bitcoin seria resolver o problema de garantir transações independentemente de decisões governamentais — uma utilidade clara em cenários de autoritarismo ou bloqueios bancários, como visto em protestos no Canadá em anos anteriores.

A questão da bolha financeira

A comparação do Bitcoin com bolhas financeiras é recorrente. Uma bolha é definida, segundo Fama, como algo que tem um fim previsível. O fato de o Bitcoin já ter atingido valor de mercado comparável às “Magnificent Seven” (as gigantes de tecnologia dos EUA) levanta suspeitas de sobrevalorização.

Se o ativo for de fato uma bolha sem utilidade real, o estouro levaria o preço a zero, validando a tese dos céticos. No entanto, a imprevisibilidade de quando isso ocorreria desafia a própria definição de bolha. Para os investidores institucionais, a tese de investimento se apoia na desconfiança do sistema financeiro tradicional e na política monetária expansionista dos bancos centrais, usando a criptomoeda como uma reserva de valor alternativa, ainda que volátil.

O risco regulatório e a intervenção estatal

Um caminho possível para o valor chegar a zero não seria pela falta de interesse do mercado, mas pela intervenção estatal severa. A descentralização do Bitcoin retira poder dos bancos e governos, facilitando, na visão dos críticos, crimes como evasão de divisas.

Se uma crise sistêmica causada por criptoativos ocorrer, investidores poderiam recorrer ao governo para um resgate, forçando uma regulação draconiana. Eugene Fama sugere que, para minimizar custos sociais, governos podem ser forçados a impor regras estritas sobre como o Bitcoin é negociado. Uma proibição global coordenada ou restrições severas de conversão para moedas fiduciárias (on-ramps e off-ramps) poderiam asfixiar a liquidez do ativo, aproximando seu valor de zero.

Conclusão: prudência em meio à incerteza

Afirmar categoricamente que o Bitcoin irá a zero ou que atingirá valores astronômicos é um exercício de futurologia. O cenário atual mostra um ativo que luta para se estabelecer como uma reserva de valor digital em um ambiente macroeconômico hostil de juros altos.

Para o investidor, a lição crucial é a gestão de risco. O Bitcoin não é uma proteção de curto prazo e comporta-se como um ativo de risco extremo. A tese de falência total baseia-se em modelos econômicos que, até agora, falharam em prever a resiliência social e institucional da criptomoeda. Contudo, ignorar a volatilidade estrutural e os alertas da teoria monetária pode ser tão perigoso quanto apostar todas as fichas em sua valorização infinita.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *