A posição de Warren Buffett em relação ao bitcoin é clara, direta e se manteve consistente ao longo dos anos: o ativo carece de valor intrínseco porque não gera fluxo de caixa nem produz bens tangíveis. Para o megainvestidor, a criptomoeda não se qualifica como um investimento produtivo, diferenciando-se drasticamente de ações de empresas, fazendas ou imóveis.
Essa visão cética fundamenta-se na filosofia de value investing (investimento em valor), que prioriza ativos capazes de gerar riqueza por conta própria ao longo do tempo. Segundo reportado pelo InfoMoney, Buffett chegou a afirmar categoricamente que, mesmo se lhe oferecessem todos os bitcoins do mundo por apenas US$ 25, ele não aceitaria a oferta. A justificativa é pragmática: ele não teria o que fazer com o ativo, exceto tentar vendê-lo de volta para outra pessoa, perpetuando um ciclo especulativo sem criação real de valor.
A diferença entre ativos produtivos e especulativos
O cerne da crítica do CEO da Berkshire Hathaway reside na distinção entre comprar algo na esperança de que o preço suba (especulação) e comprar algo que gera rendimentos (investimento). Buffett utiliza exemplos concretos para ilustrar seu ponto de vista, comparando a criptomoeda com terras agrícolas e empreendimentos imobiliários.
Durante a conferência anual de acionistas da sua holding, ele explicou que pagaria bilhões por 1% de todas as terras agrícolas dos Estados Unidos ou por 1% de todos os prédios de apartamentos do país. O motivo é simples: as fazendas produzem alimentos e os apartamentos geram aluguéis. Esses são ativos produtivos. Eles entregam algo à sociedade e ao investidor, independentemente do preço de mercado momentâneo.
Em contrapartida, conforme destacado pelo Valor Investe, Buffett argumenta que o bitcoin não produz nada. Ele depende exclusivamente de que o próximo comprador esteja disposto a pagar um valor maior do que o anterior. Esse mecanismo é frequentemente associado à Teoria do Mais Tolo (Greater Fool Theory), onde o lucro só é possível se houver alguém mais otimista (ou “tolo”) para comprar o ativo a um preço inflacionado.
Por que o bitcoin não substitui o dólar
Outro pilar da argumentação de Buffett envolve a soberania monetária. Para ele, não existe motivo plausível para que o governo dos Estados Unidos aceite uma moeda digital criada por empresas ou descentralizada como substituto do dólar. O poder de emitir moeda e controlar a política monetária é uma ferramenta central de qualquer nação soberana.
Embora admita não saber se a cotação do bitcoin subirá ou cairá nos próximos anos — seja em um, cinco ou dez anos —, ele mantém a convicção de que o ativo não cumpre as funções básicas de uma moeda de reserva ou de um meio de troca eficiente e estável, dada a sua alta volatilidade e falta de lastro produtivo.
A visão dura de Charlie Munger
Charlie Munger, o lendário vice-presidente da Berkshire Hathaway e braço direito de Buffett por décadas, costumava ser ainda mais incisivo em suas críticas. A postura de Munger ia além da análise financeira, entrando no campo ético e moral.
Munger classificou o bitcoin como “estúpido e mau”. Suas razões eram triplas:
- Estúpido: Porque, em sua visão, a probabilidade de o valor ir a zero continuava existindo.
- Mau: Porque mina o sistema financeiro tradicional e a autoridade do Federal Reserve (o Banco Central dos EUA), que garantem a estabilidade econômica.
- Vergonhoso: Porque faz os Estados Unidos parecerem tolos em comparação com a China.
A referência à China é significativa. O líder chinês Xi Jinping optou por banir as transações com criptomoedas no país, uma decisão que Munger elogiou como uma demonstração de inteligência e pragmatismo para evitar os riscos sistêmicos que esses ativos poderiam trazer à economia real.
Outras vozes de peso contra a criptomoeda
Buffett e Munger não estão sozinhos no ceticismo. Outros grandes nomes do mercado financeiro e da tecnologia também levantaram bandeiras vermelhas sobre a sustentabilidade e a lógica do bitcoin, reforçando a tese de que o ativo pode não ser o “ouro digital” que muitos pregam.
Bill Gates e o impacto ambiental
Bill Gates, cofundador da Microsoft, apontou problemas estruturais no funcionamento da criptomoeda. Sua crítica foca no mecanismo de consenso (mineração), que exige um poder computacional massivo. Gates destacou que as transações de bitcoin, não vinculadas a nenhum banco central, podem causar danos ambientais severos.
Estudos corroboram essa preocupação. Pesquisadores da Universidade de Cambridge indicaram que a mineração de bitcoin consome mais energia elétrica anualmente do que países inteiros, como a Argentina ou a Holanda. Para investidores focados em ESG (Environmental, Social and Governance), esse é um fator de risco inegável.
Nassim Taleb e a falácia da proteção
Nassim Taleb, autor de obras seminais como “A Lógica do Cisne Negro”, também mudou sua postura de entusiasta para crítico ferrenho. Ele descreveu o bitcoin como um “jogo perfeito para otários” em tempos de juros baixos.
Taleb desmontou a narrativa de que a criptomoeda serve como hedge (proteção). Segundo ele, o bitcoin falhou em provar ser uma proteção contra:
- Inflação;
- Crises do petróleo;
- Quedas no mercado de ações;
- Eventos geopolíticos.
Na visão de Taleb, o comportamento do ativo tem sido o oposto de uma reserva de valor estável, correlacionando-se muitas vezes com ativos de risco justamente nos momentos de pânico do mercado.
O argumento da escassez versus utilidade
Defensores do bitcoin frequentemente citam a escassez programada (o limite de 21 milhões de unidades) como a principal fonte de seu valor, comparando-o ao ouro. O argumento é que essa limitação evita a inflação causada pela impressão desenfreada de dinheiro por governos.
No entanto, para Buffett, a escassez por si só não cria valor. Um ativo pode ser raro e, ainda assim, inútil. A utilidade é o que determina a longevidade e a segurança de um investimento. Se o ativo não serve para produzir alimentos, abrigar pessoas ou facilitar a produção industrial, sua valorização depende puramente do sentimento de mercado, que é volátil e imprevisível.
Robert Kiyosaki, autor de “Pai Rico, Pai Pobre”, embora seja um crítico do sistema fiat (moeda fiduciária), também expressou pessimismo quanto ao futuro regulatório do bitcoin. Ele alertou para a possibilidade de confisco ou regulação severa por parte dos governos, o que poderia impactar drasticamente a liquidez e a legalidade do ativo.
Lições para o investidor comum
A crítica de Buffett não deve ser vista apenas como um ataque à tecnologia blockchain, mas como uma aula sobre fundamentos de investimento. A filosofia da Berkshire Hathaway ensina que se deve investir apenas no que se compreende profundamente e no que gera valor tangível.
Para o investidor que busca construir patrimônio a longo prazo, a mensagem é cautela. Ativos que não produzem renda passiva ou produtos essenciais estão sujeitos aos caprichos da especulação. Enquanto fazendas continuam produzindo comida e prédios continuam abrigando famílias, o bitcoin permanece, na visão de Buffett, como um ativo que fica parado esperando que alguém pague mais por ele.
Em suma, a recusa de Buffett em comprar bitcoins, mesmo por um valor irrisório, reflete sua disciplina inabalável: o preço é o que você paga, o valor é o que você leva. E, para ele, no bitcoin, não se leva nada produtivo para casa.