A principal razão pela qual economistas céticos duvidam do Bitcoin como uma reserva de valor segura reside na sua incapacidade de proteger patrimônio durante crises geopolíticas e financeiras, comportando-se, na prática, como um ativo de risco especulativo. Ao contrário da narrativa de “ouro digital”, dados recentes mostram que a criptomoeda tende a sofrer quedas abruptas justamente nos momentos em que investidores buscam segurança, correlacionando-se mais com o mercado de ações do que com refúgios tradicionais.
Para quem busca estabilidade, os números são alarmantes. Durante o ano de 2025, um período marcado por conflitos internacionais e incertezas fiscais, o Bitcoin não sustentou sua valorização, encerrando o ano com queda, enquanto o ouro atingiu máximas históricas. Essa divergência de desempenho é o argumento central dos analistas: uma verdadeira reserva de valor deve preservar poder de compra no caos, não amplificar a volatilidade.
A falha no teste de estresse de 2025
Se a teoria do Bitcoin como porto seguro fosse sólida, o ano de 2025 teria sido o momento de sua consolidação definitiva. O cenário global estava repleto de catalisadores de medo: guerras no leste europeu, tensões no Oriente Médio e instabilidade política nas Américas. No entanto, o desempenho do ativo frustrou as expectativas mais otimistas.
Segundo dados analisados pela Investing.com, o Bitcoin iniciou o ano com força, atingindo um pico de US$ 126 mil em outubro. Contudo, essa alta não se sustentou diante da aversão ao risco real. O ativo encerrou dezembro cotado a aproximadamente US$ 87.496, representando uma queda anual de cerca de 6% em relação aos valores de janeiro.
Economistas apontam que esse movimento de “voo de galinha” demonstra que o BTC segue o apetite por risco (risk-on). Quando o medo domina o mercado, o capital foge das criptomoedas, invalidando sua função teórica de hedge (proteção) contra catástrofes.
Comparação direta com o ouro e a prata
O contraste com os metais preciosos reforça o ceticismo dos especialistas. Enquanto o Bitcoin recuava, o ouro confirmou seu status milenar de reserva de valor. O metal amarelo registrou um preço médio anual recorde de US$ 4.550 por onça em 2025, uma valorização de 64% em relação ao ano anterior.
A demanda física foi o grande motor dessa alta, com bancos centrais adquirindo 863 toneladas — o maior volume desde a década de 1970. A prata teve um desempenho ainda mais explosivo, com ganhos superiores a 147%, impulsionada tanto pela busca por segurança quanto pela demanda industrial para painéis solares e eletrônicos.
Esses dados indicam que, quando os grandes gestores de reservas nacionais precisam proteger seus balanços, eles recorrem a ativos tangíveis e historicamente testados, ignorando a narrativa do Bitcoin.
Volatilidade inviabiliza o uso comercial e contábil
Outro pilar da crítica econômica foca na usabilidade da moeda. Para que um ativo funcione como reserva de valor e meio de troca, ele precisa oferecer um mínimo de previsibilidade. A FecomercioSP destaca que a flutuação extrema impede que o Bitcoin seja adotado seriamente pelo comércio tradicional.
Imagine um cenário prático: um supermercado ou uma concessionária de veículos não pode aceitar uma moeda que vale US$ 20 mil hoje e pode cair para US$ 10 mil na semana seguinte. A margem de lucro de qualquer negócio real seria dizimada por essa variação cambial. Somente especuladores estão dispostos a tolerar tal volatilidade; agentes econômicos que dependem de fluxo de caixa estável, não.
Além disso, a falta de “curso forçado” (obrigatoriedade de aceitação) e a ausência de uma política monetária clara controlada por uma entidade responsável geram insegurança jurídica e contábil para empresas que considerariam manter o ativo em balanço.
O mito da escassez programada
Defensores do Bitcoin frequentemente citam o limite máximo de 21 milhões de unidades como garantia matemática de valorização futura. O argumento é que, sendo a oferta fixa e inelástica, qualquer aumento na demanda elevaria o preço. Economistas, porém, identificam uma falha lógica nesse raciocínio: o valor depende da demanda, não apenas da oferta.
A escassez por si só não cria valor se o interesse pelo ativo desaparecer ou diminuir. Em 2025, a oferta de Bitcoin permaneceu programada e previsível, mas isso não impediu quedas de 30% em semanas críticas de tensão geopolítica. A demanda pelo ativo provou ser volátil, movida por hype e tendências de curto prazo, e não por uma necessidade estrutural do sistema financeiro.
A resposta dos bancos centrais: desdolarização sem bitcoin
Estamos vivenciando um momento histórico de questionamento do dólar como moeda de reserva global. A dívida pública americana atingiu o patamar alarmante de US$ 38,43 trilhões em janeiro de 2026, com juros consumindo quase US$ 1 trilhão anuais do orçamento dos EUA.
Diante desse cenário de fragilidade fiscal americana, os bancos centrais globais estão diversificando suas reservas. No entanto, eles não estão migrando para o Bitcoin. O Banco Central do Brasil, por exemplo, comprou 42,8 toneladas de ouro entre setembro e novembro de 2025, elevando suas reservas do metal para 172,4 toneladas.
Essa preferência institucional pelo ouro em detrimento das criptomoedas sinaliza que, na visão dos formuladores de política econômica, a segurança reside em ativos sem risco de contraparte e com aceitação universal física, características que o Bitcoin ainda não possui.
Problemas de rastreabilidade e propriedade
A natureza descentralizada do Bitcoin, embora tecnologicamente revolucionária, apresenta barreiras para sua classificação como investimento seguro nos moldes tradicionais. A crítica aponta para a dificuldade de rastreamento e a falta de clareza sobre a propriedade efetiva dos ativos em muitos casos.
Diferente de um imóvel registrado ou de ações custodiadas em bolsa, onde a titularidade é jurídica e clara, o Bitcoin depende da posse de chaves privadas. A perda dessas chaves resulta na perda total do ativo, sem possibilidade de recurso. Além disso, a percepção de anonimato (ainda que parcial) muitas vezes associa a criptomoeda a riscos de conformidade que grandes fundos de pensão e tesourarias corporativas preferem evitar.
Tecnologia versus ativo financeiro
É fundamental separar a tecnologia blockchain do ativo Bitcoin. Economistas reconhecem que a blockchain é uma inovação disruptiva, trazendo transparência e eficiência para pagamentos e contratos inteligentes. A infraestrutura é valiosa e provavelmente será integrada aos sistemas financeiros globais.
No entanto, a utilidade da rede não confere automaticamente ao token nativo (BTC) as qualidades de uma moeda estável ou reserva de valor. O sucesso da tecnologia de transferência não garante que a unidade de conta manterá seu poder de compra ao longo do tempo, especialmente quando compete com moedas digitais de bancos centrais (CBDCs) que começam a surgir.
Em suma, enquanto o Bitcoin continuar apresentando correlação positiva com ativos de risco e volatilidade incompatível com a preservação de capital, a tese de “reserva de valor” permanecerá, na visão da ortodoxia econômica, uma promessa não cumprida.