A probabilidade de a China reverter oficialmente o banimento do Bitcoin no curto prazo permanece baixa, especialmente considerando o endurecimento das regulações sobre tokenização e stablecoins observadas em 2026. No entanto, existe uma desconexão crescente entre a retórica oficial de Pequim e a realidade operacional no país: dados recentes indicam que a China recuperou silenciosamente sua posição como um dos maiores polos de mineração do mundo, detendo cerca de 14% da taxa de hash global.
Essa retomada, impulsionada pelo excesso de energia barata e pela infraestrutura ociosa, sugere uma abordagem pragmática e não declarada por parte das autoridades locais. Enquanto o governo central reafirma a proibição para proteger o controle de capital e promover o Yuan Digital, províncias ricas em recursos energéticos parecem tolerar a atividade industrial da mineração como forma de monetizar a eletricidade excedente.
O retorno silencioso da mineração industrial
Apesar da proibição total decretada em 2021, que visava eliminar a ameaça à estabilidade financeira e conservar energia, a indústria de mineração de criptomoedas demonstrou uma resiliência surpreendente. De acordo com informações apuradas pela InfoMoney, a China voltou a ocupar o terceiro lugar no ranking global de mineração, saindo de uma participação próxima a zero logo após o banimento para expressivos 14% no final de outubro de 2025.
Esse ressurgimento não é acidental. Ele é alimentado por mineradores individuais e corporativos que operam na clandestinidade ou sob a vista grossa de governos locais em regiões como Xinjiang. A lógica econômica prevalece: a eletricidade nessas áreas muitas vezes não pode ser transmitida eficientemente para outras partes do país, criando um excedente que seria desperdiçado se não fosse convertido em valor através da mineração de Bitcoin.
Mineradores locais, como um operador identificado apenas como Wang, relatam que novos projetos estão em construção constante. A premissa é simples: onde há eletricidade barata e isolada, haverá mineração, independentemente das diretrizes centrais. O retorno das vendas da fabricante de equipamentos Canaan Inc no mercado chinês corrobora esse movimento de reaquecimento do setor.
A influência da geopolítica e do fator Trump
O cenário de 2026 é profundamente influenciado pelas mudanças na política norte-americana. A postura favorável às criptomoedas adotada pelo presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, alterou a dinâmica global, incentivando uma corrida tecnológica. A valorização do Bitcoin, que atingiu níveis recordes, tornou a atividade de mineração financeiramente atrativa, superando os riscos regulatórios associados à operação na China.
Além disso, existe uma crescente desconfiança em relação ao dólar como reserva de valor hegemônica. Para muitos investidores e operadores chineses, o Bitcoin serve como uma ferramenta de hedge, um ativo incensurável em um momento de incerteza econômica global. A ironia reside no fato de que, ao banir o setor, a China cedeu terreno estratégico aos Estados Unidos e à Ásia Central, mas a força bruta do mercado parece estar forçando uma correção natural desse fluxo.
O endurecimento regulatório em 2026
Embora a mineração física esteja vivendo um renascimento prático, o cenário legal para transações financeiras e novos ativos digitais tornou-se ainda mais hostil. Dados indicam que a China expandiu suas proibições em 2026, focando especificamente na tokenização de ativos e em stablecoins. Segundo análises da CoinDCX, o governo reafirmou sua repressão, mirando qualquer instrumento que possa facilitar a fuga de capitais ou competir com a moeda estatal.
Essa dualidade cria um ambiente complexo: a China parece caminhar para um modelo onde a produção do ativo (mineração) é tolerada devido aos benefícios energéticos e industriais, enquanto a circulação e especulação financeira permanecem estritamente proibidas para o cidadão comum. O objetivo é claro: impedir que o Bitcoin ameace a soberania monetária do Banco Popular da China, mantendo o controle estatal sobre os fluxos financeiros.
Desafios energéticos e a postura das províncias
A Comissão Nacional de Desenvolvimento e Reforma, órgão que emitiu a proibição original em 2021, citou a conservação de energia como um dos pilares para o banimento. No entanto, a realidade da infraestrutura chinesa é que a geração de energia renovável (hidrelétrica e eólica) em províncias remotas frequentemente supera a capacidade de transmissão para os grandes centros urbanos.
Nesse contexto, proibir a mineração resultou em desperdício de recursos. O retorno das operações em 2025 e 2026 sugere que os governos provinciais estão priorizando a receita local e a eficiência energética em detrimento da obediência cega às diretrizes de Pequim. Data centers disfarçados ou operações de mineração integradas a outras indústrias tornaram-se comuns, operando em uma zona cinzenta regulatória.
O papel do yuan digital
Um dos maiores obstáculos para a reversão do banimento é o projeto do Yuan Digital (e-CNY). A China investiu pesadamente no desenvolvimento de sua própria moeda digital de banco central (CBDC), desenhada para oferecer rastreabilidade total e controle governamental. Permitir o livre comércio de criptomoedas descentralizadas como o Bitcoin seria contraproducente para a adoção em massa do e-CNY.
Portanto, qualquer “reversão” futura provavelmente não será um retorno ao livre mercado observado antes de 2017. Se houver uma legalização, ela deverá vir acompanhada de restrições severas, possivelmente permitindo que apenas instituições estatais ou grandes corporações licenciadas detenham e transacionem esses ativos para fins de comércio internacional ou reserva estratégica, mantendo o varejo fora do jogo.
Conclusão: um futuro híbrido
Analisando o cenário de 2026, a possibilidade de a China reverter completamente o banimento do Bitcoin e permitir que seus cidadãos comprem e vendam livremente a criptomoeda é remota. O controle social e financeiro permanece como prioridade máxima do Partido Comunista Chinês.
Contudo, a realidade impõe nuances. A China já está revertendo, na prática, a erradicação da mineração. O país está reocupando sua posição de liderança no processamento da rede Bitcoin, movido pela necessidade de aproveitar excedentes energéticos e pela competição geopolítica. O resultado mais provável para os próximos anos não é uma legalização oficial, mas sim uma tolerância estratégica: uma proibição no papel, mas uma aceitação industrial silenciosa onde convém aos interesses do Estado.